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domingo, 3 de setembro de 2017

Na Minha Pele - Lázaro Ramos

Desfio literário 2017 - junho: um livro emprestado.

Junho já passou faz tempo, e comecei o livro no final de agosto, mas vamos tentar continuar seguindo o fluxo do desafio, não é? :)

E, bom, não foi um livro emprestado. Foi ganhado, com uma linda dedicatória, como presente de aniversário. E era um livro que eu queria muito ler! :) 

A proposta de Na Minha Pele, de Lázaro Ramos é discutir as questões essenciais em sua própria vida, mostrando ao leitor como é ser um ator negro no meio artístico brasileiro e, muito além disso, o que é ser um indivíduo negro, pobre, alvo de preconceito (naturalmente, apenas pela cor de sua pele) no Brasil e fora dele.

Lázaro começa falando de sua infância e de como foi sua formação, suas relações familiares e de amizade, seu desejo pela atuação no teatro, os desafios que enfrentou para conseguir alcançar esse desejo e toda a estigmatização envolvida em todo esse processo.

Em vários momentos de digressão, onde ele mesmo se desculpa por isso, ficamos conhecendo um tanto da relação com os pais, com familiares, com Wagner Moura e Vladmir Brichta, dos desafios, dos anseios e desejos de quebrar paradigmas e estigmas, de fugir do padrão, de enfrentar as situações lugar-comum...

Ficamos conhecendo Dindinha, a tia querida que criou ele e boa parte dos primos e outros familiares, de como foi sua infância na Ilha do Paty e dos desafios que enfrenta e enfrentará no seu dia a dia, enquanto homem negro, ator negro, pai, marido, filho... 

É engrandecedor. 

É realmente um modo de pensar nas diversas situações vividas no país, ainda que não se esteja inserido nelas. 

Bem sabemos que somos, diversas vezes, em diversos momentos, e por razões diferentes, alvos de preconceito, mas não temos o hábito de nos colocarmos no palco da vida de outros. Enquanto mulher, sei bem de algumas coisas, mas nunca sofri o preconceito racial - apenas o imagino, e o que imagino já não é nada fácil.

Houve uma fala dele que, automaticamente, me remeteu à produção cinematográfica de adaptação da obra de Stephen King: A Torre Negra (minha favorita do autor). 

Quando a produção anunciou que o ator que interpretaria Roland Deschain seria Idris Elba, muitos fãs e alguns admiradores do autor criticaram ferozmente a alteração do protagonista da história: Roland é 'O último pistoleiro', branco, de olhos azuis. Idris é negro. E foi o ator escolhido para interpretar esse personagem, saindo do lugar-comum, do padrão e, certamente, fazendo um papel à altura de sua qualidade enquanto ator. Uma das séries em que atua e que gostei muito foi Luther, pela qual ganhou o Golden Globe em 2012.

Então, eu compreendo quando Lázaro cita as opções de escolha de determinados autores para suas novelas e filmes. Esperamos, na grande maioria das vezes, que o ator/atriz escolhido para o papel nos remeta ao personagem que encontramos nos livros, mas nem sempre isso é necessário, afinal, televisão e cinema são outras mídias e, por isso, novas possibilidades se abrem. 

A discussão sobre preconceito racial, diferenças sociais e respeito, no Brasil (e em tantos outros países mundo afora), ainda está engatinhando. Mas, certamente, melhor engatinhar em frente, de cabeça erguida, do que ficar parado no mesmo lugar de sempre, deixando que outros - que não são melhores que ninguém - passem por cima atropelando.

Nota 10! :)

sábado, 25 de março de 2017

A Cor Púrpura - Alice Walker

Desafio Literário 2017.
Março: Um livro do ano em que nasci. 
E este foi o segundo deste mês. E me cativou grandemente. Tanto que tive que dar um tempo pra resenhar, senão seria uma das maiores resenhas, de tanto que gostei.

A Cor Púrpura, de Alice Walker, é um livro incrivelmente fantástico, escrito em 1982 e que em 1983 garantiu à autora um Pulitzer

Neste livro, muito bem escrito, Walker aborda o preconceito racial, as diferenças sociais entre homens e mulheres, a submissão feminina, o homossexualismo, as mudanças que ocorrem com o passar do tempo e do crescimento de uma pessoa que de pequena nada tinha, mas que se achava minúscula.

Início do século XX, sul dos Estados Unidos da América, onde as questões raciais eram bastante intensas, com muita segregação entre brancos e negros. E mais ainda entre os próprios negros. Luxo era ter um branco como escravo - literalmente comprado. 

Celie, a protagonista, vivia resignada às situações da vida, pois era o que tinha aprendido. Semi analfabeta, foi abusada, destratada, maltratada. É através das suas cartas que conhecemos sua história triste e de muita luta, mas com um final lindo e emocionante.

Escrito todo em primeira pessoa, a autora mostra o quanto foi sofrida a situação dos negros no sul dos Estados Unidos da América. Mais ainda, abordando, de certo modo, o feminismo, Walker nos apresenta os primeiros movimentos pelos direitos das mulheres de poderem pensar, ser e vestir o que quiserem, sem estar subordinadas às vontades dos homens - que se achavam seus donos e lhes batiam para garantir o respeito que lhes era devido. Semelhanças com a realidade de hoje há muitas. Infelizmente.

Celie aprende, vive, sente, chora, ama, odeia. E no passar de anos vivemos tudo isso com ela. Sentimos alegria, raiva, felicidade, saudades, medo, vontades... Tudo isso no decorrer das quase 300 páginas deste livro. E, no final, a vontade de que ele continue é maior.

A leitura é fluida, e o texto, escrito de modo a demonstrar as dificuldades da personagem em lidar com a linguagem, nos carrega conforme ela própria evolui ao aprender mais conforme os anos passam em sua vida. 

É uma leitura cativante, emocionante. Um livro pra ter na cabeceira e ler, pelo menos, uma vez por ano, pra lembrar do quanto pessoas já sofreram para que conseguíssemos ter direitos e voz. 

Há um filme feito a partir deste livro. Ainda não o assisti, mas pretendo fazê-lo em breve. Esperando, obviamente, que ele transmita toda a emoção que senti ao ler estas páginas.

Nota 10!